Venezuelanos correm e fazem filas de dobrar quarteirão para ganhar comida em Boa Vista

Por Emily Costa, G1 RR — Boa Vista


Venezuelanos recebem pão e copo de suco servido por missionárias católicas no Centro de Boa Vista — Foto: Emily Costa/G1 RR

Ações de distribuição de comida estão atraindo um número cada vez maior de refugiados em Boa Vista, capital brasileira mais próxima à fronteira com a Venezuela. Por um café da manhã, filas dobram o quarteirão e uma entrega de sopa provoca correria. Famintos, venezuelanos que fugiram de um país afundado em uma complexa crise econômica e social se acotovelam para ganhar comida.

Enquanto viraliza um vídeo do presidente Nicolás Maduro se fartando com churrasco e charuto em um restaurante de luxo em Istambul, centenas de venezuelanos se aglomeram para receber pão e suco doado pelas Irmãs Missionárias da Consolata, no Centro de Boa Vista. A fila, que começou ainda ao amanhecer dessa quarta-feira (19), às 7h40 já dobrava o quarteirão.

Refugiados esperam distribuição de café da manhã no Centro de Boa Vista — Foto: Emily Costa/G1 RR

Refugiados esperam distribuição de café da manhã no Centro de Boa Vista — Foto: Emily Costa/G1 RR

“Caminhei por meia hora para chegar até aqui”, relata Richard Guerrero, 33, enquanto termina de comer o pão e beber o copo de suco que ganhou após duas horas na fila.

Há dois meses no Brasil, o ex-cozinheiro está desempregado e dorme sobre papelões em frente à rodoviária da cidade. “Ontem à noite me deram arroz e carne na rua e eu comi”.

Richard Guerrero, 33, vivia em Santa Elena de Uairén e está há dois meses no Brasil — Foto: Emily Costa/G1 RR

Richard Guerrero, 33, vivia em Santa Elena de Uairén e está há dois meses no Brasil — Foto: Emily Costa/G1 RR

Com um bebê recém-nascido no colo, e ao lado dos outros dois filhos de 8 e 13 anos, Evelin Morales, 30, também enfrentou fila para comer.

“Sempre há mais e mais pessoas esperando aqui para tomar café da manhã”, descreve Evelin Morales.

Com ‘clientes’ que se multiplicam dia após dia, as missionárias já se acostumaram a ver o pão acabar antes da fila. Entre os venezuelanos se relata que até refugiados que vivem em abrigos estão indo ali para tomar café.

Procurada, a operação Acolhida, que atende os estrangeiros que chegam ao Brasil, informou que a alimentação dos abrigos que mantêm em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e ONGs é regular. Três vezes ao dia há café, almoço e jantar nos 10 abrigos para venezuelanos sem teto no estado – 9 em Boa Vista e 1 em Pacaraima.

“Anteontem encheu, ontem veio mais e hoje estourou”, diz a irmã Elisa Pandiani, explicando que o café da manhã ofertado pelas Irmãs Missionárias da Consolata aos refugiados é servido de segunda a sexta-feira desde junho.

“No começo eram 100, 150 pães. Hoje tem gente que vai embora sem conseguir comer, porque depois de servir 500 pães não temos mais o que doar. Eles vêm famintos”.

Irmã Elisa Pandiani entrega pães a crianças refugiadas venezuelanas no Centro de Boa Vista — Foto: Emily Costa/G1 RR

Irmã Elisa Pandiani entrega pães a crianças refugiadas venezuelanas no Centro de Boa Vista — Foto: Emily Costa/G1 RR

Quatro voluntárias ajudam na distribuição do café gratuito. Eles priorizam mulheres, crianças e idosos e controlam quem tenta furar fila.

“Eu sinto muita pena dos idosos. Já pensou na velhice você se ver obrigado a começar tudo de novo?”, lamenta Floria Penalba, enquanto tirava pães de um balde para entregar aos refugiados. “É muita gente, e todo dia tem mais”.

À medida que vão ganhando comida, os venezuelanos se dispersam pela rua e aos poucos vão desaparecendo. Mas basta alguém oferecer comida para que uma nova ‘fila da fome’ se forme.

Em fila, venezuelanos recebem porções de sopa em frente à Rodoviária Internacional de Boa Vista — Foto: Emily Costa/G1 RR

Em fila, venezuelanos recebem porções de sopa em frente à Rodoviária Internacional de Boa Vista — Foto: Emily Costa/G1 RR

“Às vezes consigo trabalho, às vezes não”, diz Carlos Salas, 43, de Sán Felix, ao tomar uma porção de sopa que acaba de ganhar de voluntários da Fraternidade Espírita Amor e Luz, na noite de segunda-feira (17) em frente à Rodoviária Internacional de Boa Vista.

“Há correria e desespero. A gente consegue ver isso neles”, conta Polly Anna Azevedo, voluntária do grupo que distribui uma vez por semana cerca de 500 porções de sopa a refugiados.

Em termos numéricos, a quantidade de venezuelanos que foge para o Brasil é irrisória. O fluxo diário na fronteira é de 500 pessoas, mas ficam no Brasil só 2% dos 2,3 milhões em êxodo do país em razão da crise que se agravou em 2015, segundo a Organização Internacional para Migrações (OIM).

Para a segunda capital menos populosa do país e mais próxima à fronteira da Venezuela, porém, a chegada de milhares de novos moradores transformou a rotina.

Já são mais de 5 mil venezuelanos vivendo em abrigos, mas ainda há acampamentos improvisados e precários nas ruas. Prédios públicos outrora abandonados também são ocupados por venezuelanos. Combina-se a isso o acirramento da violência entre a população local e os imigrantes e se tem uma bomba-relógio.

 Carlos Salas, 43, toma sopa em uma embalagem de leite reaproveitada — Foto: Emily Costa/G1 RR

Carlos Salas, 43, toma sopa em uma embalagem de leite reaproveitada — Foto: Emily Costa/G1 RR

Em 18 de agosto, venezuelanos tiveram acampamentos destruídos e deixaram Pacaraima sob protesto de moradores. O ato foi após um comerciante brasileiro relatar ter sido assaltado e agredido por imigrantes e faltar ambulância para socorrê-lo.

O grave episódio não foi o único. Em março, refugiados tiveram bens queimados e foram expulsos de Mucajaí após um brasileiro e um venezulano morrerem em uma confusão. Menos de um mês antes, umguianense foi preso por jogar coquetéis molotov em casas de venezuelanos, deixando cinco feridos, entre eles uma menina de 3 anos.

“Uma vez um brasileiro veio, ameaçou derrubar a mesa, chutou o carro, queria saber porque estávamos dando comida aos venezuelanos”, relembra Polly Anna.

Perguntada se a situação a fez mudar de ideia, ela garante que não. “Se cada um fizer sua parte nós podemos construir um mundo melhor”, diz enquanto continua a servir sopa a uma fila de refugiados.

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